Contrastes e a necessidade de olhares sensíveis.


Foto: JP Rodrigues

É uma conversa sobre o futuro, que é o presente.


Já sabemos da importância que o Setor Comercial Sul tem na representação de Brasília, a capital do país, sendo um grande centro urbano de comércio e negócios, e hoje passa por um processo de revitalização a partir da ótica da economia criativa e solidária.

Toda cidade é definida pelos grupos humanos que agem sobre ele, ocupam, transformam e o disputam. Em sua essência reflete as inúmeras facetas manifestadas pelo fluxo de pessoas que em suas quadras perpassa, trabalha ou é morador, aqueles que lá ficam de maneira fixa: os indivíduos em situação de rua.


Dada a complexa relação territorial, condições particulares de reprodução social, apropriações, ressignificações e valorização do espaço, existe a tempos os conflitos de interesses entre atores presentes no setor: os comerciantes e lojistas que atribuem a criminalidade às pessoas em situação de rua, e pedem a ressocialização/retirada dos moradores de rua. No lado oposto, tem os mesmos, que não tem para onde ir e precisam ser olhados com humanidade e particularidade. Questões que exige atenção.


A Gestão atual do Governo do DF objetiva transformar os prédios fechados, abandonados e salas vazias em residenciais, mas uma pergunta fica no ar: a quem interessa transformar o SCS em um setor de moradia? Os interesses privados irão sobressair os públicos? Moradia para quem?


Rogério Soares de Araújo, o “Barba”, no passado, já fez parte dessa população e sentia na pele a vulnerabilidade socioeconômica, olhares de discriminação e preconceito, falta de acesso aos direitos básicos (moradia, educação, higiene pessoal, alimentação e arte). Relembre da entrevista que fizemos com ele em janeiro de 2020: https://www.panoramascs.com/post/empoderar-para-ressocializar e do poder do olhar empático, como as instituições citadas na conversa - Revista Traços, SCSTour e o No Setor - tem na mudança de perspectivas e consequentemente na vida dessas pessoas.


Outra iniciativa que merece destaque, é uma produção jornalística, de 2017, intitulada “Buraco Fundo”, em que os olhares se voltam aos que são ignorados, deu-se lugar para que estes relatem sua história e claro, para o debate necessário à complicada circunstância. Uma das figuras participantes do projeto fora Sara e Fernando, paulista e brasiliense respectivamente, cada qual com as razões de estarem ali na época: a primeira, fuga de violência doméstica, e o segundo, dependência química. Juntos eles simbolizam inúmeras outras pessoas que buscam acolhimento no SCS.


Só no DF são mais de 2 mil pessoas nessa situação de vulnerabilidade (AGÊNICA BRASÍLIA – GDF, 2021) e com a pandemia de COVID-19 que estamos vivendo, as problemáticas e desafios só aumentaram devido a perda de empregos, renda e ausência de políticas públicas efetivas destinadas a esta população.


Como essa pluralidade de indivíduos se protege se não tem os mínimos recursos de sobrevivência? Usar máscara e lavar onde? Higienizar as mãos com quais produtos? Assuntos que devem ser constantemente discutidos e resolvidos governamentalmente, juntamente com o auxílio da sociedade.


Em setembro de 2020 houve uma operação do DF Legal, sem aviso, que apreendeu os únicos pertences dessa comunidade vulnerável e à margem. Ainda tiveram que ir até o local de apreensão para a devolução. Em uma segunda-feira (19/07/2021), eles foram retirados de áreas de circulação, dessa vez objetos não foram apreendidos. Dia 28, ainda em julho de 2021, enquanto revisamos esse post, outra ação ilegal (de acordo com a lei nº 6.657, de 17 de agosto de 2020): removeram o que chamaram de “lixo”, e o que os moradores declararam ser bens pessoais, como panelas e cobertores.


Utilizando a verba pública para realizarem ações ilegais e autoritárias, sem penalizar os responsáveis pelas operações.


Inserida no contexto de ajuda e resgate a cidadania e dignidade dos reais moradores do Setor Comercial Sul, está o Instituto Cultural e Social No Setor, a organização busca o diálogo com o Estado e a sociedade civil, desenvolvendo maneiras para sanar demandas destes. Juntos eles mantêm o banheiro comunitário, horta, fazem parcerias com outras entidades a fim de conseguir recursos, recebem doações e voluntários, envolvem os indivíduos em situação de rua nos projetos culturais (uma possibilidade de renda), mantêm as redes sociais ativas que prestam notícias diárias e que procuram engajar mais cidadãos para conhecerem o setor. Dessa forma constroem e dão oportunidades, significados aqueles que, muitas vezes, não são vistos.


Ainda braço do instituto, o SCSTour realiza walking's tour, que promove a sensibilização para a preservação da memória e identidade do setor e, por diversas vezes, os protagonistas desse post contribuíram com o passeio de turistas e cidadãos.


Beber água, tomar banho, se alimentar, trabalhar, não morrer de frio, se divertir, se sentir seguro para dormir. Chamamos de rotina. Para quem foi posto nessa situação de vulnerabilidade, são direitos a eles negado.


Apelamos, com muito carinho: é preciso incentivar nossas instituições de justiça a serem eficazes e que os Brasil - eiros/enses participem estrategicamente desse movimento de apoio (afinal, é nosso dever como cidadãos cuidar do que é nosso, do que investimos). Adultos e crianças nessa situação, agem sobre as cidades encorajando um futuro maduro, o de desenvolvimento humano.